No próximo passo da nossa introdução a este abrangente tema da mitologia greco-romana, concluí que será útil darmos uma olhada em um verdadeiro herói da Antiguidade e nos concentrarmos nesse personagem. Depois falaremos sobre isso brevemente. Em breve esta aula irá parar, e aparecerá uma tela com um link. Clique no link e veja as imagens. Depois retorne ao curso e falaremos sobre o que você viu. Pronto. Espere aí - você está dizendo que não foi um verdadeiro herói da Antiguidade que acabamos de ver. Foi só o Kevin Sorbo, fazendo o papel de Hércules em uma versão americana sem graça de um drama infanitil para a TV nos anos 1990, produzido por Sam Raimi. Muito bem, Sam, excelente trabalho. Mas você deve estar pensando que isso não tem nada a ver com este curso, certo? Essa é só uma versão do herói que não tem nada a ver com a versão da Antiguidade. Repare que ele tem um corte de cabelo repicado que é típico de sua época. É fortão como um herói deve ser, mas não tem músculos super definidos. Não parece ser violento. É até simpático, parece bonzinho e gentil. Heróis da Antiguidade são durões, e há muito sangue, e são astutos e extraordinariamente eficientes quando têm uma missão a cumprir. Esse sujeito não parece ser nada disso. Então isso não pode ter nada a ver com o nosso curso, certo? Bem, avancemos um pouco e vamos dar uma olhada em outra versão dessa figura de que estamos falando. Ok. Você reconhecerá aqui outra versão de como seria Hércules. Nesta pensamos: bom, esta parece um pouco mais antiga. Está esculpida em pedra. Com certeza á algo muito antigo. Parece ser entalhado e é intimidante. Tudo bem. E vemos que ele tem uma pele de leão. E ao lado, uma clava. Com o que sabemos sobre Hércules, esses são sem dúvida aspectos do verdadeiro Hércules. Então isso deve ser mais parecido com o que era o verdadeiro Hércules do que aquela caracterização de Kevin Sorbo que vimos. Então tudo isso parece ser um pouco melhor. Mas examinemos mais atentamente essa representação. Bom, na verdade, o que temos aqui não é uma estátua real, é só uma imagem de computador, uma representação de uma estátua que existiu originalmente. Repare nos detalhes, há uma gravação com ácido e essa gravação foi feita no século 19. E veja aqui os detalhes essa figura específica, na parte central: há uma folha de parreira bem ali. Ora, os gregos não usavam folhas de parreira. Na época em que essa gravação foi feita, parece que as partes do meio eram consideradas indecentes. Por isso, elas eram cobertas. Acontece que os gregos e romanos não faziam isso. Então, o que temos aqui é uma versão mais moderna daquele que pensamos que será o nosso herói. Então vamos voltar mais um pouco no tempo e pensar um pouco nisso. A gravação que baseou esta representação na tela so seu computador foi, ela própria, baseada em uma estátua antiga real. Não é verdade? Bem: sim e não. Ela se baseou em uma versão romana de uma estátua antiga. Então voltamos a mais uma representação, e a gravação é baseada em uma estátua romana real. E os romanos tinham suas ideias sobre Hércules. aliás, eles inventaram o nome "Hércules". Ele foi inventado muito antes do tempo dos romanos, com base em um precedente grego da figura romana. Portanto, se estamos procurando pelo verdadeiro Hércules, temos de voltar a um tempo anterior ao dessa estátua romana. Na verdade, a estátua romana é uma cópia de um original grego que existiu muitas centenas de anos antes da estátua romana que foi a base da gravação que estamos analisando. Portanto, o original grego deve provir do local onde viveu o verdadeiro Hércules, certo? E, de fato, dado o que sabemos, viremos a página em mais alguns séculos: vemos que os romanos foram os primeiros a usar o nome Hércules. Basearam-no em um original grego, mas no original grego a pronúncia era diferente: Héracles. Parecido, mas não soava muito bonito para um nome romano. Por isso, eles o modificaram. Então, se estamos procurando pelo verdadeiro Hércules, temos de voltar a Héracles, que foi o original grego no qual a cópia romana se baseou. Tomemos a liberdade de supor que nossa cópia romana é uma cópia totalmente fiel de um original grego. Então pensamos: aqui está uma gravação de uma cópia romana de uma estátua grega original. E sem dúvida essa estátua grega original deve ser como o verdadeiro Hércules era. Mas aqui há outro problema. O original grego no qual se baseou a cópia romana é do fim da era clássica na Grécia Antiga. Essa não foi uma época muito mítica para os gregos. A era mítica é muitos séculos anterior à Grécia clássica. Então onde está o verdadeiro Hércules e onde iremos encontrá-lo? A probabilidade é de que nunca o encontraremos. Um mito é uma história que está sempre sendo recontada. Procurar por momentos originais,l por uma versão original da qual possamos falar sobre todas as outras como acréscimos inventados é impossível. Não encontraremos a verdade original ao falarmos sobre mitos. Acho que o mito resiste às nossas tentativas de encontrar alguma representação pura, autêntica, das grandes histórias nas quais estamos interessados. O mito será sempre não apenas algo contado, mas recontado. Essas histórias praticamente sempre existiram e foram contadas e recontadas por gerações. Seu tema relaciona-se a esta nossa figura, essa pessoa impressionante: Héracles. Notem sua força, sua capacidade. Ele tem uma pele de leão ao seu lado que é um troféu do animal selvagem que ele matou. Tem uma clava, portanto há violência envolvida. Ficamos apreensivos com o que poderemos ver a seguir. Esses heróis extremamente competentes têm mãos incrivelmente fortes. Dão conta de suas missões. E fazem isso sem pensar muito. São engenhosos, são espertos quando é preciso, e quando alguma coisa tem de ser feita, eles fazem. Vamos passar muito tempo falando sobre os heróis. E quando falarmos sobre figuras como Odisseu, Édipo ou qualquer uma das outras figuras impressionantes neste curso, estaremos falando sobre versões desses heróis descritas por poetas, contadores de mitos, que acrescentam sua versão da história às tradições antigas. Nunca encontraremos uma história realmente original, como já mencionamos. O grande poeta Homero já estava trabalhando em uma época em que havia muitas versões tradicionais. Suas versões tornaram-se extremamente influentes. Mas de modo nenhum diremos que Homero é a palavra final, ou que Ovídio é a palavra final. Todas as diferentes versões dos mitos que estudaremos são apenas isso: versões. E nos ajudarão oferecendo uma janela para o que vamos examinar. Neste nosso estudo, veremos muitas coisas sobre esses mitos. Provavelmente a coisa mais importante em todos eles é: você e eu. Nossa espécie, o que é ser humano. Esse tipo de questão -- o que é ser humano -- irá animar esses contadores de histórias e levá-los a alturas sublimes. Somos criaturas impressionantes. Por exemplo, veja este sujeito aqui. Parece que ele vai lançar esse disco a dez quilômetros de distância. Tem um físico admirável, belas formas, dignas de representação. Não só podemos apreciar a forma física por trás da representação, mas também podemos nos fascinar com a própria arte de representar. O ser humano é capaz de grandes proezas, representadas nesta figura e também na proeza da representação desse artista, que fez a estátua. Seremos, portanto, o mais importante, nós, humanos, a família humana será o mais importante em nosso estudo. Também passaremos um bom tempo estudando este ser e seus semelhantes. Porcos, vacas, touros, todo tipo de animal irão povoar nossas histórias míticas. Os antigos se interessavam por eles. Queriam saber como os animais se comportavam, e especialmente como você e eu, como seres humanos, nos relacionamos com eles. Além disso, em alguns momentos, você e eu como humanos, recorreremos à ajuda de animais em nosso estudo. Vemos aqui uma famosa caracterização. Quem já conhece a história do ciclope reconhecerá Odisseu usando um carneiro para ajudá-lo a escapar do ataque do monstro, o ciclope. E você e eu, como seres humanos, iremos recorrer a esses animais para nos ajudar, e ter alguma ligação com eles é vantajoso. Heróis demonstram que têm essa ligação. Portanto, estamos falando de humanos e de animais, e para que não pensemos que existe uma distinção entre esses dois grupos, uma distinção que nunca foi contestada, veja só essa figura atrás de mim. Essas criaturas metade humanas e metade animais são famosas na arte grega. São vistas com um certo estranhamento. Talvez elas tenham algum papel a desempenhar na sociedade, mas não se parecem conosco, e nós não as temos por companhia. Mas ouvimos falar delas e elas povoarão algumas partes interessantes das nossas histórias míticas. Agora o outro aspecto que nós, humanos temos: por um lado, consideramos os animais inferiores a nós. E as criaturas metade humanas metade animais são seres intermediários. Do outro lado, encontramos os deuses. Os deuses costumam aparecer para nós em visões, por isso quando na mitologia encontrarmos uma representação de algum tipo de interação costumeira entre humanos e deuses, os deuses vêm até nós disfarçados. Eles podem vir em sonhos ou em uma visão durante o dia com algum tipo de disfarce, apresentando-se, por exemplo, como uma moça mortal, um velho ou alguma outra coisa. Esses disfarces permitem que eles andem entre nós sem que saibamos. Geralmente, veremos nos mitos que as pessoas mais inteligentes e os grandes heróis sabem disso. Eles sabem quando estão na presença de deuses. As pessoas tolas nunca sabem. Mas quando os deuses estão em nosso meio, é porque têm coisas importantes para fazer. E o que é interessante: eles estão interessados em nós. Esta figura aqui, toda imponente, por exemplo. Oi, Apolo! Só o fato de eu estar aqui olhando para ele cara a cara já é uma ofensa. Perdão, Apolo! Foi sem querer. Ninguém vai querer deixar Apolo bravo. Os deuses vão existir lá em cima. Sim, eles descerão, nós teremos visões deles, mas de modo geral o mundo deles não é o nosso mundo. Nós somos diferentes dos deuses. Os humanos reais sabem que são diferentes dos deuses. E quando falam sobre deuses, falam com um temor reverente. Os deuses estão em um mundo só deles. E não os vemos pessoalmente. Tentamos manter uma distância respeitosa, e quando temos alguma interação com eles, os deuses é quem mandam. Porque eles controlam tudo o que acontece. E nós temos sempre que respeitar isso. Agora, vejamos outra classe de seres que precisamos apresentar antes de prosseguir. Veja este cara aqui. Vimos Odisseu escapar da caverna no slide anterior. Nosso amigo aqui, o Ciclope: você pode ver o olho no meio da testa. Esse cara vai aprontar umas coisas ruins em nosso épico. Nós iremos ler a Odisseia de Homero, mais ou menos devagar e com atenção nas primeiras semanas de aula. E isso nos dará uma ótima introdução a todo tipo de temas míticos e também nos apresentará algumas das mais memoráveis cenas de maldade dos mitos antigos, incluindo nossos monstros. O Ciclope desta figura é um dos mais famosos. O Ciclope, coitado, tem só um olho no meio da testa. É um gigante, é enorme. É muito forte, mas pouco inteligente. Comete o erro de contrariar Odisseu. E ninguém deve fazer isso. Não é nada bom. Odisseu passa a perna nele. Teremos a oportunidade de conhecer todos os detalhes dessa história quando estudarmos a Odisseia. Agora, paremos um pouco para refletir. O que significa estudar mitos no mundo de hoje? Em nossas aulas? Porque obviamente não vivemos na Antiguidade, certo? Somos muito diferentes deles. Você e eu vivemos em um mundo de microchips. Nossa interação neste momento é permitida, quase como uma fantasia, por uma tecnologia científica tão complexa que ficamos pasmos diante das nossas capacidades para nos conectarmos uns com os outros. é impressionante. E digo isso com toda sinceridade. O mundo em que vivemos é totalmente diferente do mundo mítico; tem sua própria magia e deslumbramento. E esse senso de conexão e interconexão está arraigado. Vivemos em um mundo profundamente ligado em rede possibilitado pela tecnologia do silício, como você vê atrás de mim. Mas acontece também que no passado houve outras épocas em que as pessoas falavam da grande interligação de seu mundo. Vamos dar uma olhada em nosso cenário. Imagine, nos anos 1930, que as pessoas do mundo todo se beneficiassem do conhecimento deste nosso professor. Acho que está faltando barba. Mas espero transmitir tanto conhecimento quanto essa pessoa parece transmitir nessa representação. Recorrendo a uma tecnologia denominada quadro-negro, e usando uma coisa chamada receptor e transmissor de televisão, ele irá transmitir para fora de sua universidade todo o espantoso conhecimento que tem para compartilhar, graças à tecnologia do receptor de televisão e do alto-falante. Pessoas em suas casas receberão essas informações. de um professor, e coisas espantosas acontecerão. Voltando a examinar esta imagem e as fantasias dos anos 1930: essa visão de conexão que anima essas imagens sem dúvida era vista em sua época como utópica, transformadora, impressionante, um fenômeno sem precedentes. Porque de repente as pessoas se tornaram capazes de usar o recurso das ondas de rádio para enviar sinais pelo ar. E isso é o que hoje esperamos que o silício faça: nos mantenha conectados. Na época eles se espantavam com a capacidade. do ar para nos conectar uns aos outros. E isso nos dá a deixa para examinar novamente o mundo antigo e perguntar: sim, somos diferentes, mas quanto exatamente somos diferentes? Somos conectados, você e eu, pelo silício. E nos anos 1930, a conexão era pelas ondas de rádio. No tempo de Homero, existia uma tecnologia impressionante para manter as pessoas conectadas. Para fazerem contato com pessoas de terras distantes de quem nunca tinham ouvido falar. A quem nunca haviam encontrado. Às vezes nem mesmo dois seres humanos dessas culturas jamais tinham se encontrado. A tecnologia que eles usavam era a navegação. E o meio que usavam era o mar. O mar Mediterrâneo é mais um tipo de personagem em nossa história da mitologia greco-romana. Ele é uma grande força conectora no mundo antigo. Um estudo acadêmico recente sobre o mar Mediterrâneio chamou-o de mar Corruptor, e essa é uma descrição muito apropriada do papel que o Mediterrâneo desempenhou na antiguidade. Quem procurar pela pureza de uma cultura, por exemplo, vasculhar em busca de algum grego puro neste curso, provavelmente estará procurando pela coisa errada. A pureza do Mediterrâneo da antiguidade é efêmera. Ela não existe. A culturas na área da grande bacia do Mediterrâneo estavam sempre interagindo umas com as outras. Isso, supomos, é parte do que faz do Mediterrâneo um lugar especial, a sua interligação. Uma mente conectada é uma mente inteligente, e os gregos eram inteligentes. Eles se interligaram a culturas de todo o Mediterrâneo através da navegação, em ligações que lhes permitiram comerciar por muitas gerações. Antes de ter início o nosso registro histórico, eles já tinham contato com culturas no extremo oeste do Mediterrâneo, e no extremo leste do Mediterrâneo. Visualize o Mediterrâneo em sua mente e imagine que você vai a Roma e aluga uma motocicleta. Pense em todas as impressionantes culturas que você verá: italianos, franceses, espanhóis, norte-africanos, os cartagineses antigos que você encontrará quando passar pelo norte da África. Você pode ir ao Egito, antigo, o mundo antigo dos israelitas, a Turquia, e a Grécia. Verá sociedades extraordinariamente variadas e antigas. Cada uma delas tem seu próprio modo singular de fazer as coisas, mas todas têm a mesma base mediterrânea, e avançaremos em nosso curso constatando não só que as histórias em que nos concentramos nos oferecem uma janela para Grécia e Roma, mas também para temas mediterrâneos mais amplos que são relevantes em toda essa região. Na maior parte do curso, é isso que faremos. Em meu curso anterior sobre mitologia greco-romana, nos concentramos mais nos gregos, e nas duas últimas semanas tratamos dos romanos que são a minha área de especialização. É isso que enfocaremos, passaremos um bom tempo estudando o mundo grego e entendendo como ele funcionava, sob vários aspectos. Algumas das coisas que veremos nos lembrarão de coisas que nos são imediatamente acessíveis; podemos entender os tipos de regras criadas, os tipos de valores vigentes; vigentes; outras coisas que veremos serão muito estranhas. E nos perguntaremos: como será que pensaram nisso, ou por que será que eles davam mais valor a tal coisa e não a outra. Examinar o que é semelhante e o que é diferente será uma das partes mais interessantes deste curso. Nós iremos nos juntar a este nosso amigo aqui: Édipo. Olá, Édipo. Na minha opinião, nós somos bem parecidos com Édipo, porque estamos tentando descobrir alguma coisa. Somos curiosos por natureza. O ser humano gosta de saber das coisas. E Édipo é um fascinante exemplo de mito de um ser humano em busca de conhecimento, tentando descobrir uma coisa. E aqui nós o vemos entrevistando a Esfinge. E nós, assim como Édipo, teremos o melhor do mundo e descobriremos mais do que a Esfinge jamais soube. Resolveremos o enigma da Esfinge e a faremos ir embora. Podemos vencer uma ou duas dessas competições de conhecimento. Mas a história de Édipo também nos introduz em outros aspectos. Nós, seres humanos, devido à nossa ignorância cometemos erros. O erro será um tema do nosso curso. E nós também, na tentativa de juntar as partes desse mundo rico e complexo, cometeremos erros e tentaremos entendê-los. Isso me faz lembrar aquele tema da conexão. A mente conectada é uma mente inteligente. Por isso, vamos todos nos manter conectados.Estamos ansiosos para que você participe com entusiasmo do forum e de outros modos de compartilharmos nossas ideias sobre esse vibrante mundo de histórias míticas.